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29 de julho de 2021

Cansaço, dores e sequelas variadas: reabilitação da covid-19 não termina com alta hospitalar

Para muitos pacientes, reabilitação da covid-19 exige acompanhamento de fisioterapeuta desde o período da internação
 
Chefe do Serviço de Fisioterapia do Hospital de Clínicas, Graciele Sbruzzi diz que, a partir da experiência com o tratamento de pacientes de covid-19 deste março do ano passado, é possível observar que as sequelas mais frequentes deixadas pela doença são fadiga, perda de força muscular, baixa tolerância para atividades diárias, perda de olfato e paladar.
“O que os trabalhos científicos trazem é a questão da fadiga e a diminuição de força muscular, e também o que a gente vê em alguns pacientes que são alterações neurológicas de não sentir o gosto, não sentir o cheiro dos alimentos. Mas fadiga, dispneia, esse cansaço significativo, falta de ar e diminuição de força muscular são alguns sintomas mais prevalentes nesses pacientes”, diz.
Cardiologista do Hospital Mãe de Deus, que atende pacientes da rede privada e conveniada em Porto Alegre, Euler Manenti explica que a literatura médica já reconhece o pós-covid como uma condição clínica. “São manifestações clínicas que o paciente, depois de se recuperar, ainda vai experimentar por alguns meses. Muitos pacientes também podem apresentar alterações neuropsiquiátricas, como alteração do sono, transtorno pós-traumático, ansiedade, depressão, cansaço mental para trabalhar, dificuldade de se concentrar. A intensidade dessas manifestações está muito relacionada com a intensidade que a doença teve”, afirma.
 
Euler concorda que o que mais chama atenção no pós-covid é um quadro de fadiga crônica dos pacientes. Contudo, destaca que eles também podem apresentar problemas cardiovasculares. “Alguns pacientes desenvolvem um tipo especial de infarto, que são microinfartos no coração. Esses pacientes precisam ser avaliados por um cardiologista e por uma equipe especializada no pós-covid”, afirma.
Euler relata que ele próprio teve covid e precisou lidar com as sequelas deixadas pela doença. Diagnosticado em dezembro, às vésperas do Natal, teve sintomas por 17 dias. Chegou a ser internados na UTI, mas não precisou ser entubado. “No pós-covid, o que eu sentia muito era uma sensação de cansaço. Tinha que dormir durante longos períodos do dia. Não tinha capacidade de me concentrar para ler um jornal inteiro, para ler um texto mais longo. Depois que voltei para casa, quando eu caminhava, dava um passo mais acelerado ou tinha que subir uma escada, eu sentia uma sensação de falta de ar. Eu comecei a fazer fisioterapia e isso me ajudou muito. Depois de três ou quatro semanas, eu comecei a melhorar bastante”, afirma o médico, acrescentando que já retornou ao trabalho.
Uma doença multissistêmica
 
Coordenador do Serviço de Fisioterapia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSCPA), Rodrigo Plentz explica que há três categorias de agravamento da covid-19. Na forma leve, o paciente praticamente não fica com sequelas. Na forma moderada, pulmões e sistema cardiorrespiratório são comprometidos após a contaminação, mas o paciente acaba se recuperando e consegue retornar a uma “vida praticamente normal”. Já a forma grave, que, via de regra, resulta na hospitalização e em internação em UTI, é, em geral, a que deixa o paciente com diversas sequelas.
“O covid-19 não termina quando o vírus fica inativo, porque ele deixa sequelas. Ele compromete vários órgãos e sistemas. A gente fala do pulmão, mas não é só o pulmão que fica afetado, depende de cada um. Depois que a pessoa consegue se curar do vírus, vamos dizer assim, ela fica com o pulmão comprometido, fica com uma fibrose pulmonar importante, que seria um enrijecimento dos alvéolos. Isso compromete a função pulmonar, a pessoa fica com dificuldades de respirar, de fazer trocas gasosas e, com isso, acaba tendo o que a gente chama popularmente de falta de ar. Mesmo depois de curar a doença”.
 
Plentz destaca que, cada um dos sistemas afetados exige uma atenção diferente após o paciente se recuperar da covid. No caso do sistema circulatório, a covid-19 afeta a coagulação sanguínea, formando tromboses, o que pode resultar em infarto e AVC (acidente vascular cerebral). “Aí o tratamento é tanto com remédios, como com exercícios físicos”, diz.
Quando afeta o sistema neurológico, pode resultar em alterações de memória, emoções, olfato, paladar e motricidade. “Sempre importante dizer que, se a pessoa já tem uma doença prévia, por exemplo, se já tem uma doença neurológica, cardíaca ou pulmonar, nessas situações esses sistemas já estão doentes, já estão alterados, e acabam ficando mais comprometidos”, afirma Plentz.
Além disso, também pode afetar o sistema muscular e articular, o que resulta na sensação de fraqueza, nas dores no corpo e nas dificuldades de realizar movimentos. “Na verdade, o covid-19 é uma doença que a gente pode classificar como sendo multissistêmica, afeta múltiplos órgãos e sistemas. Inicialmente, pulmão e coração, depois sistema neurológico, musculoesquelético e até mesmo o sistema renal pode ficar comprometido. Tendo em vista tudo isso, é muito importante que, depois que a pessoas saia do hospital, receba um acompanhamento médico e também um acompanhamento de fisioterapia para fazer a reabilitação desses problemas”, afirma.
 
Graciele Sbruzzi, do Clínicas, destaca também que, além dos efeitos da doença em si, nos casos mais graves, há uma série de sequelas que são resultado da internação prolongada em UTI. “Muitos pacientes ficam vários dias internados na UTI em uso de ventilação mecânica, em uso de algumas medicações como bloqueador neuromuscular ou sedativos que diminuem a força muscular desses pacientes, o que ocasiona perda de força e massa muscular. Então, o paciente sai com uma fraqueza muscular significativa da UTI. E algumas outras alterações também, como na fala, disfagia, algumas vezes desenvolvem a ocorrência de feridas por esse tempo prolongado de internação na UTI”, explica.
Foto: Divulgação/GHC
Por Luís Eduardo Gomes

 

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